05 fev 2010 @ 20:51 
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Hoje eu resolvi escrever uma historinha que pode nos ajudar a refletir sobre a nossa carreira, nossa empresa, nossos objetivos e principalmente sobre nossos próximos passos.

A história é totalmente fictícia, não faz referência a nenhum profissional, certificação ou empresa em particular, mas aproveitei um pouco do que ando vendo nos fóruns e lendo em alguns livros sobre carreira e liderança para criar uma história que pode ser a história de muita gente aí fora.

Espero que gostem :)

Hoje é o primeiro dia da Sophie Kowalsky, nova testadora na BugSoft Corporation. Ela foi selecionada entre os mais de 150 candidatos a vaga de estágio no departamento de qualidade da BugSoft. Nessa seleção, a BugSof se preocupa não no conhecimento que o profissional já tem, mas sim nas características pessoais dos candidatos. Ser criterioso, detalhista, crítico e comunicativo é mais importante do que dominar linguagens, ferramentas ou ter certificações.

Hoje ela está começando a sua carreira de estagiaria como testadora, mas nunca viu nada sobre teste na vida, afinal de contas, na faculdade que ela estuda não existe nenhuma matéria exclusiva de teste de sioftware.
Ela está entusiasmada com as novidades, aos poucos começa a pegar o ritmo sobre como fazer testes exploratórios, em algumas semanas já consegue executar testes de casos de teste e reportar ótimos defeitos.

A BugSoft é uma empresa responsável e visionária, seis meses depois contratou a Sophie mesmo sem ter terminado a graduação, agora ela é uma testadora e já conhece muito sobre a malícia de encontrar defeitos.
Um ano e meio depois, a Sophie terminou a sua graduação, agora com dois anos de experiência já começa a ajudar Julien, analista de teste certificado, com a especificação de alguns casos de teste menos complexos e já está estudando para ser uma profissional certificada.

A BugSoft é uma empresa responável e visionária, acredita em pessoas como Sophie e resolveu ajudá-la na conquista da sua primeira certificação com os custos, materiais e algumas horas de estudo durante o expediente. O resultado não podia ser diferente, a Sophie passou com 90% de aproveitamento na prova da certificação, e agora é uma profissional certificada. A empresa reconheceu o valor da certificação, mas informou que existe mais um tempo de aprendizado até que ela possa se tornar uma analista de teste de software.

Com a certificação, a Sophie que acompanha diversas listas de discussão sofre por várias vezes a tentação de mudar da BugSoft para uma outra empresa que esteja pagando um alto salário para um profissional certificado, mas ela resiste pois confia na posição dos seus líderes que tem uma carreira pronta para ela na organização, seu amigo Julien, analista de teste, resolveu abandonar a BugSoft para ir para a CertifiedSoft.

Seis meses depois, Sophie é promovida a Analista de Teste. Ela fica muito contente, tem um aumento considerável e está novamente recarregada e motivada. Ficou aliviada em não tentar ir para a nova oportunidade, pois Julien, acabou descepsionado. Ele confessou que apesar do salário, os projetos não eram tão interessantes, os líderes não tinham as habilidades necessária e o clima de competição enfraquecia o companheirismo, já que as certificações valiam ouro e ele executava na maioria do tempo atividades de testador, quando na verdade gostaria de trabalhar como analista de teste.

Passado um ano, o envolvimento da Sophie cresceu muito em alguns projetos, e no principal seguimento da BugSoft, o que fez com que os líderes da empresa começassem a vê-la de uma forma diferente. Sua líder direta, Christelle, ressaltou a capacidade de organização e a facilidade ao lidar com pessoas de Sophie e em um acordo com os diretores da empresa, mesmo sem o conhecimento da Sophie, começou a direcioná-la para uma carreira de liderança.
Em conversas informais sobre livros, sobre, MBAs e etc., começou a influenciar Sophie de uma maneira a orientá-la a um crescimento dentro da empresa.

Sophie decidiu se matricular em uma pós graduação de Gerência de Projetos e a BugSoft colabora com 50% das despesas com educação da Sophie. Depois de um ano ela já está na metade da pós graduação e a empresa está crescendo em um ritmo muito estável, consequentemente, com projetos maiores. A empresa decide então promover Sophie para Coordenadora de Teste.

Agora ela coordena os novos testadores e analistas de teste, os orienta quanto as mesmas dúvidas que ela teve nos últimos quase quatro anos e organiza os projetos em que participa para otimizar os recursos de teste. Toma decisões importantes, mas sempre consultando sua líder, Christelle.
Claro que Sophie almeja um dia ser líder de teste, mas ela é demasiadamente leal a Christelle, que retribui com a mesma lealdade e atenção, e durante todos esses anos a ajudou em sua carreira.  As duas comemoram vitórias umas das outras como se fossem suas próprias.

Ao mesmo tempo, Julien já é líder de testes. Claro que ele teve que enganar um pouco daqui, enganar um pouco dali, puxar o tapete de algumas pessoas, inclusive do seu líder que de tanta pressão acabou pedindo demissão. Julien hoje suporta uma pressão maior ainda do que seu antigo líder. A CertifiedSoft despenca em faturamento pelo terceiro ano consecutivo, além dos altos salários que paga para os profissionais certificados que não param de sair para outras oportunidades, ela enfrenta uma crise, pois sua principal certificação não foi aprovada na reavaliação RightProcess, o que custou o título de qualidade que foi conquistado por anos e anos de consultorias e horas gastas, naquela época em que a CertifiedSoft contava mais com pessoas motivadas sem certificação.

Mais dois anos se passaram e a BugSoft cresceu e conquistou um novo mercado em outro país. Uma mudança no organograma foi feita e agora a Christelle foi promovida para Gerente de Teste do mercado atual, enquanto o seu superior foi promovido como diretor do novo pólo. Obviamente Christelle se lembrou imediatamente que Sophie havia terminado a sua pos graduação e agora já estava com mais de 12 pessoas no seu comando. Sophie tinha conseguido elevar a produtividade dos colaboradores sem modificar o clima harmonioso da fábrica de testes e agora estava prestes a começar o seu MBA em Planejamento Estratégico de Pessoas, MBA em que Christelle tinha concluído a um ano atrás. Com o cenário atual, Sophie foi promovida para Líder de teste, não só no departamento em que Christelle liderava, mas também em outras duas filiais.

Cinco anos mais tarde, após um longo período de complicações, a CertifiedSoft não resistiu e perdeu muitos de seus clientes para a BugSoft, que reformulou seus objetivos estratégicos e conquistou o nível máximo de excelência nos últimos cinco anos durante as auditorias do RightProcess. A CertifiedSoft teve que realizar cortes e Julien foi demitido.

Julien era uma pessoa que se esforçava pela empresa, mas como a CertifiedSoft tinha uma alta taxa de rotatividade, muitas pessoas conheceram Julien, que por ter sido lapidado por uma empresa com uma cultura voltada a comparações e competições, acabou tornando muitas dessas pessoas “inimigas”, o que dificultou seu retorno para o mercado como líder de teste.

Hoje, cinco anos depois, a BugSoft é uma das maiores empresas do seguimento de software no continente e possui várias filiais e diretorias. A diretoria de Planejamento Estratégico de Qualidade é liderada Pela Dr.ª Kowalsky, que insiste em ser chamada de Sophie. Ela ajuda a organização a tomar decisões importantes, a encontrar talentos e a conquistar novos mercados.  Nessa mesma empresa, está entrando um novo analista de teste chamado Julien. Na verdade, ele já trabalhou aqui a alguns anos, mas isso quando a BugSoft ainda era uma “empresinha” na pequena cidade SmallCity.

A história acima é totalmente hipotética, mas reflete a influência que a empresa tem sobre os colaboradores e o como a pressa por altos salários pode atrapalhar uma carreira promissora. Os personagens também são fictícios e os nomes vieram de um filme francês chamado “Jeux d’enfants” que na verdade é uma história romântica.

Quando pensamos em carreira, não devemos pensar em salários, certificações e títulos, mas sim em experiências, network e conquistas. Essas conquistas podem ser nossas, da nossa empresa, dos nossos lideres, dos nossos colegas de trabalho, dos nossos colegas de blog e mercado ou do nosso seguimento. Quando uma pessoa tem sucesso, todo mundo é afetado de uma forma positiva.

Conhecer o mercado, dominar o ego, trabalhar em equipe, esperar e aproveitar oportunidades, não são habilidades fáceis de aprimorar e na maioria das vezes são mais decisivas na nossa carreira do que certificações, pós graduações ou títulos conquistados.

Uma vez um dos meus lideres me disse: “O segredo para o sucesso é ser lembrado sempre que tocarem em assuntos da sua área de atuação“.

Bons testes :)

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This work is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-Share Alike 3.0 Unported License.

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Posted By: Camilo Ribeiro
Last Edit: 02 mar 2010 @ 10:27

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Categories: Carreira, Certificação


 

Responses to this post » (6 Total)

 
  1. Camilo,

    Concordo contigo, quando você diz que “quando pensamos em carreira, não devemos pensar em salários, certificações e títulos, mas sim em experiências, network e conquistas.”.

    Salários, certificações e títulos são todos resultados dos nossos esforços e da nossa competência, nunca devem ser objetivos finais.

    Um exemplo clássico é em relação a certificações: o importante é que os estudos agreguem na sua carreira e te façam entender melhor a área que você deseja se especializar, e aplicar as melhores práticas no seu dia-a-dia. Se você conseguiu já está ótimo, o certificado é só um “brinde” pelos seus esforços, o grande prêmio mesmo é o conhecimento adquirido.

    Abraços!

  2. Obrigado pelo comentário, que como sempre, é uma contribuição muito válida.

    Acho que todo mundo no começo da carreira, tem pressa em conquistar um alto salário e está disposto a tudo por isso. O caminho mais fácil que a maioria acredita ser um facilitador para isso é a certificação.
    O problema é que quando a certificação se torna um objetivo e não uma consequência, ela é nociva para o profissional e principalmente para a classe, pois profissionais sem a devida capacidade e/ou experiência acabam conseguindo os 75% nas provas, o que reduz o valor do profissional certificado no mercado.
    Esse pensamento aliado a uma organização exessivamente competitiva, pode trazer conflitos internos, onde o ego acaba interferindo na qualidade dos profissionais, consequentemente no ambiente e organização. Um livro que estou lendo sobre esse assunto é o Egonomics ou Fator Ego, do David Marcum e do Steven Smith.

    Um amigo meu e um dos mais conceituados arquitetos de software aqui em Minas, o Corélio, comentou no blog dele um artigo chamado O profissional “Um ano júnior, dois anos pleno e trinta e dois anos sênior”!? onde apresenta um cenário muito parecido, também na corrida por altos salários.

  3. Eduardo Gomes disse:

    Camilo,
    Achei que o conto representa bem a realidade que vivemos hoje na área de testes. Parabéns pela criatividade!

    Já presenciei situações muito parecidas com as que você descreveu. E o que mais me chama a atenção é que muitas vezes as pessoas trocam de empresa com extrema facilidade e por qualquer pequena diferença salarial que lhes é oferecida.
    Não se criam mais vínculos entre as empresas e seus colaboradores, o que prejudica muito os ambientes corporativos; e em um ambiente não propício, fica difícil encontrar motivação por muito tempo.

    Vejo as certificações, assim como os cursos de especialização, como uma excelente oportunidade de nos mantermos atualizados e motivados com aquilo em que trabalhamos. O conhecimento tem um grande poder de motivar as pessoas a sempre buscar mais.

    Mas no momento em que um profissional se qualifica, naturalmente aumenta sua empregabilidade e o mercado passa a disputá-lo com maior intensidade. Esse é um fato com o qual os profissionais precisam aprender a lidar, para que não corram o risco de se iludirem por salários ou benefícios um pouco melhores.

    Particularmente, acredito que o que vale mesmo a pena é fazer aquilo por que temos verdadeira paixão, as relações profissionais que cultivamos e a vontade de fazer sempre o melhor. O sucesso e o retorno financeiro são apenas uma consequência de tudo isso.

    Abraço.

  4. Muito obrigado pela excelente colocação Eduardo.

    O seu último parágrafo, assim como o comentário do Fabrício, resume todo o meu texto :)

    Sobre presencia esse tipo de coisa, acho que está ficando comum. A velha história, “Sou certificado, sou sênior” não para de crescer.
    Claro que acredito que aquele que busca se certificar, busca conhecimento, estar atualizado e tudo mais, mas “eu” particularmente observo mais se o profissional estuda em engenharia de software em geral, tem o hábito de leitura, lê nossas listas de discussão/blogs do que simplesmente tem uma, duas ou dez certificações.

    Não existe nada mais triste do que receber um currículo com um curso superior, algumas experiências e nada de atualizações, como cursos extra curriculares, certificações, cursos de línguas ou participações em projetos e seminários. Mas também é muito estranho receber um currículo com três meses de experiência e uma ou duas certificações.

    Outra coisa também, é o “testador de galhos” que devo comentar em um post futuro. Aquele testador que, como comentado por você, muda de empresa por baixos aumentos ou benefícios, e acaba ficando 3 ~ 5 meses em cada experiência. Acho que 3 meses em um projeto médio, não é tempo nem para dominar o negócio, quanto mais para levar a experiência daquela oportunidade.

    Nós somos os profissionais que crescem em meio aos problemas. Correr deles é exatamente o contrário do que as organizações esperam de nós, portanto, abracemos os problemas.

    Mais uma vez obrigado pelo comentário.

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