Recentemente, em uma das listas de discussão em que participo, vi uma coisa que eu jurava que não acontecia mais. Em pleno século XXI, era do conhecimento e o que é mais agravante, em uma área de pessoas entusiastas por métricas precisas que somos nós, cientistas da computação, usando anos de experiência para julgar o famoso “salary label” :
Júnior, Pleno e Sênior
Eu acredito fortemente que o mercado não julga anos de experiência como único fator de decisão para um determinado cargo e salário. O mais engraçado é que muitas das pessoas não tem a mínima noção quanto ao que deve ser chamado um analista júnior, pleno ou sênior, e ao ser questionadas sempre se dizem Seniores com 3~4 anos de experiência.

Outra coisa que vem aparecendo com muita força nas listas de teste de software é a certificação. Muita gente acha que o simples fato de ter uma certificação vai mudar sua posição no mercado. Com esse pensamento, aquele estagiário com 6 meses de experiência como testador, se mata de estudar e consegue uma certificação. Agora ele passa a ser pleno (ou sênior). Logo passa a ser um profissional “promíscuo” na busca por mais e mais dinheiro fora de hora.
As nossas certificações estão um pouco “fracas”, mas isso é tema já muito discutido, como no post “Certificações Valem a Pena?” do Fabrício Ferrari, no post “Certificação, um Mal Necessário” do Edwagney Luz e em tantos outros posts e discussões nas nossas listas e foruns. O que quero dizer é que a certificação, ainda mais as low level, não são por si só, caracterizadoras da qualidade do profissional. O simples fato de tirar uma certificação esperando um aumento salarial, só pela certificação, é um erro tremendo e uma prova de imaturidade profissional. Além disso, “Uma certificação pode até te ajudar a conquistar uma posição nova e melhor no mercado, mas não te ajuda a mantê-la.” (lembra do Julien do post “Era uma vez um testador” ?).
Esse pensamento imaturo sobre certificação é fortalecido também pelo fenômeno das “empresas três letrinhas” (empresa que tem um selo pelo selo e não pela qualidade, e quer profissionais certificados pela certificação e não pelo conhecimento) que ainda está muito presente.
Um artigo muito interessante chamado “O profissional “Um ano júnior, dois anos pleno e trinta e dois anos sênior”!?” sobre isso, foi publicado pelo meu amigo e um dos grandes nomes da Engenharia de Software, Marco Mendes, um dos maiores profissionais com quem já trabalhei, onde ele expõe com firmeza o que as pessoas de hoje fazem para ganhar o “salário dos sonhos” antes de ser o “profissional dos sonhos”.
No artigo o Marco fala sobre um método de avaliação que eu acho muito válido, baseando-se em milhares de horas de projeto, dezenas de projetos de sucesso, vasta formação acadêmica, etc. Certamente, medidas dessa proporção não são para qualquer um, mas sou um “cara da qualidade” e a palavra quantidade raramente é absoluta para mim, por isso eu não ficaria feliz de imediato se me dissessem: “Parabéns, você ganhou 10 Milhões de Dólares Zimbabuanos!”, antes de qualquer coisa eu perguntaria: “Qual a taxa de conversão em Reais?”, logo descobriria que são ~R$6,50.
Isso é um exemplo do quanto os números são traiçoeiros e de que podem ser usados para impressionar e enganar as pessoas, mesmo que isso não seja intencional. Por esse motivo acho que é muito importante questionar esses números.
Essas 7.000 horas de projetos foram executadas em quais projetos? Quais as características desses projetos? Qual a sua importância para esse projeto? Essas dezenas de projetos foram para que clientes? Qual a complexidade desses projetos? Qual a importância desses projetos para a organização? Qual a sua contribuição para o sucesso desses projetos? Quais as suas pós-graduações, suas grades e trabalhos desenvolvidos? Etc.
Por outro lado, o Marco cita também uma característica que sou obrigado a referenciar (e aplaudir): “Arrisco-me a dizer, entretanto, que talvez o atributo mais importante seja a humildade, afinal de contas, para reconhecer as próprias limitações e aprender continuamente.”.
Uma outra coisa interessante também acontece, ao contrario do que o mercado prevê, existem pessoas fantásticas que demonstram dominação de técnicas, bons pontos de vista, observações e considerações de um expert com apenas 2 ou 3 anos de experiência. Alem disso tem mais participação efetiva no mercado do que muitos dos “vovôs do teste de software” que aparecem de um dia para o outro.
Ao mesmo tempo vejo o mercado pedindo “8~10″ anos de experiência para ser um “Coordenador” ou “Engenheiro de teste”, e me pergunto: “Será que oito anos de experiência é mais do que três anos de intensa experiência?”.
Penso isso porque existem os extremos opostos dos super profissional que em dois anos já está super capacitado, com força de vontade e “matando a pau” em todas as demandas, técnicas e ferramentas citado acima. Existem os profissionais preguiçosos que se aproveitam desse “bug” nos gerentes retrógrados e ficam acomodados, sem se atualizar durante anos. No mesmo “testa aí” em um monte de projetos CRUD e sem metade da experiência válida de um “super testador”.
Bem . . . Lamento decepcioná-lo prezado leitor, mas não posso chegar a uma conclusão ou propor uma formula mágica, ainda porque não sou um profissional que perambula por esses lados da ciência, mas posso propor rever os pontos de vista sobre o “salary label“, pensando diferente sobre os números, os títulos e etc., valorizando mais a intensidade da experiência, a capacidade de resolver problemas e o talento do profissional do que a quantidade de anos ou letrinhas embaixo no nome.
Referências:
Hoje eu resolvi escrever uma historinha que pode nos ajudar a refletir sobre a nossa carreira, nossa empresa, nossos objetivos e principalmente sobre nossos próximos passos.
A história é totalmente fictícia, não faz referência a nenhum profissional, certificação ou empresa em particular, mas aproveitei um pouco do que ando vendo nos fóruns e lendo em alguns livros sobre carreira e liderança para criar uma história que pode ser a história de muita gente aí fora.
Espero que gostem
Hoje é o primeiro dia da Sophie Kowalsky, nova testadora na BugSoft Corporation. Ela foi selecionada entre os mais de 150 candidatos a vaga de estágio no departamento de qualidade da BugSoft. Nessa seleção, a BugSof se preocupa não no conhecimento que o profissional já tem, mas sim nas características pessoais dos candidatos. Ser criterioso, detalhista, crítico e comunicativo é mais importante do que dominar linguagens, ferramentas ou ter certificações.
Hoje ela está começando a sua carreira de estagiaria como testadora, mas nunca viu nada sobre teste na vida, afinal de contas, na faculdade que ela estuda não existe nenhuma matéria exclusiva de teste de sioftware.
Ela está entusiasmada com as novidades, aos poucos começa a pegar o ritmo sobre como fazer testes exploratórios, em algumas semanas já consegue executar testes de casos de teste e reportar ótimos defeitos.
A BugSoft é uma empresa responsável e visionária, seis meses depois contratou a Sophie mesmo sem ter terminado a graduação, agora ela é uma testadora e já conhece muito sobre a malícia de encontrar defeitos.
Um ano e meio depois, a Sophie terminou a sua graduação, agora com dois anos de experiência já começa a ajudar Julien, analista de teste certificado, com a especificação de alguns casos de teste menos complexos e já está estudando para ser uma profissional certificada.
A BugSoft é uma empresa responável e visionária, acredita em pessoas como Sophie e resolveu ajudá-la na conquista da sua primeira certificação com os custos, materiais e algumas horas de estudo durante o expediente. O resultado não podia ser diferente, a Sophie passou com 90% de aproveitamento na prova da certificação, e agora é uma profissional certificada. A empresa reconheceu o valor da certificação, mas informou que existe mais um tempo de aprendizado até que ela possa se tornar uma analista de teste de software.
Com a certificação, a Sophie que acompanha diversas listas de discussão sofre por várias vezes a tentação de mudar da BugSoft para uma outra empresa que esteja pagando um alto salário para um profissional certificado, mas ela resiste pois confia na posição dos seus líderes que tem uma carreira pronta para ela na organização, seu amigo Julien, analista de teste, resolveu abandonar a BugSoft para ir para a CertifiedSoft.
Seis meses depois, Sophie é promovida a Analista de Teste. Ela fica muito contente, tem um aumento considerável e está novamente recarregada e motivada. Ficou aliviada em não tentar ir para a nova oportunidade, pois Julien, acabou descepsionado. Ele confessou que apesar do salário, os projetos não eram tão interessantes, os líderes não tinham as habilidades necessária e o clima de competição enfraquecia o companheirismo, já que as certificações valiam ouro e ele executava na maioria do tempo atividades de testador, quando na verdade gostaria de trabalhar como analista de teste.
Passado um ano, o envolvimento da Sophie cresceu muito em alguns projetos, e no principal seguimento da BugSoft, o que fez com que os líderes da empresa começassem a vê-la de uma forma diferente. Sua líder direta, Christelle, ressaltou a capacidade de organização e a facilidade ao lidar com pessoas de Sophie e em um acordo com os diretores da empresa, mesmo sem o conhecimento da Sophie, começou a direcioná-la para uma carreira de liderança.
Em conversas informais sobre livros, sobre, MBAs e etc., começou a influenciar Sophie de uma maneira a orientá-la a um crescimento dentro da empresa.
Sophie decidiu se matricular em uma pós graduação de Gerência de Projetos e a BugSoft colabora com 50% das despesas com educação da Sophie. Depois de um ano ela já está na metade da pós graduação e a empresa está crescendo em um ritmo muito estável, consequentemente, com projetos maiores. A empresa decide então promover Sophie para Coordenadora de Teste.
Agora ela coordena os novos testadores e analistas de teste, os orienta quanto as mesmas dúvidas que ela teve nos últimos quase quatro anos e organiza os projetos em que participa para otimizar os recursos de teste. Toma decisões importantes, mas sempre consultando sua líder, Christelle.
Claro que Sophie almeja um dia ser líder de teste, mas ela é demasiadamente leal a Christelle, que retribui com a mesma lealdade e atenção, e durante todos esses anos a ajudou em sua carreira. As duas comemoram vitórias umas das outras como se fossem suas próprias.
Ao mesmo tempo, Julien já é líder de testes. Claro que ele teve que enganar um pouco daqui, enganar um pouco dali, puxar o tapete de algumas pessoas, inclusive do seu líder que de tanta pressão acabou pedindo demissão. Julien hoje suporta uma pressão maior ainda do que seu antigo líder. A CertifiedSoft despenca em faturamento pelo terceiro ano consecutivo, além dos altos salários que paga para os profissionais certificados que não param de sair para outras oportunidades, ela enfrenta uma crise, pois sua principal certificação não foi aprovada na reavaliação RightProcess, o que custou o título de qualidade que foi conquistado por anos e anos de consultorias e horas gastas, naquela época em que a CertifiedSoft contava mais com pessoas motivadas sem certificação.
Mais dois anos se passaram e a BugSoft cresceu e conquistou um novo mercado em outro país. Uma mudança no organograma foi feita e agora a Christelle foi promovida para Gerente de Teste do mercado atual, enquanto o seu superior foi promovido como diretor do novo pólo. Obviamente Christelle se lembrou imediatamente que Sophie havia terminado a sua pos graduação e agora já estava com mais de 12 pessoas no seu comando. Sophie tinha conseguido elevar a produtividade dos colaboradores sem modificar o clima harmonioso da fábrica de testes e agora estava prestes a começar o seu MBA em Planejamento Estratégico de Pessoas, MBA em que Christelle tinha concluído a um ano atrás. Com o cenário atual, Sophie foi promovida para Líder de teste, não só no departamento em que Christelle liderava, mas também em outras duas filiais.
Cinco anos mais tarde, após um longo período de complicações, a CertifiedSoft não resistiu e perdeu muitos de seus clientes para a BugSoft, que reformulou seus objetivos estratégicos e conquistou o nível máximo de excelência nos últimos cinco anos durante as auditorias do RightProcess. A CertifiedSoft teve que realizar cortes e Julien foi demitido.
Julien era uma pessoa que se esforçava pela empresa, mas como a CertifiedSoft tinha uma alta taxa de rotatividade, muitas pessoas conheceram Julien, que por ter sido lapidado por uma empresa com uma cultura voltada a comparações e competições, acabou tornando muitas dessas pessoas “inimigas”, o que dificultou seu retorno para o mercado como líder de teste.
Hoje, cinco anos depois, a BugSoft é uma das maiores empresas do seguimento de software no continente e possui várias filiais e diretorias. A diretoria de Planejamento Estratégico de Qualidade é liderada Pela Dr.ª Kowalsky, que insiste em ser chamada de Sophie. Ela ajuda a organização a tomar decisões importantes, a encontrar talentos e a conquistar novos mercados. Nessa mesma empresa, está entrando um novo analista de teste chamado Julien. Na verdade, ele já trabalhou aqui a alguns anos, mas isso quando a BugSoft ainda era uma “empresinha” na pequena cidade SmallCity.
A história acima é totalmente hipotética, mas reflete a influência que a empresa tem sobre os colaboradores e o como a pressa por altos salários pode atrapalhar uma carreira promissora. Os personagens também são fictícios e os nomes vieram de um filme francês chamado “Jeux d’enfants” que na verdade é uma história romântica.
Quando pensamos em carreira, não devemos pensar em salários, certificações e títulos, mas sim em experiências, network e conquistas. Essas conquistas podem ser nossas, da nossa empresa, dos nossos lideres, dos nossos colegas de trabalho, dos nossos colegas de blog e mercado ou do nosso seguimento. Quando uma pessoa tem sucesso, todo mundo é afetado de uma forma positiva.
Conhecer o mercado, dominar o ego, trabalhar em equipe, esperar e aproveitar oportunidades, não são habilidades fáceis de aprimorar e na maioria das vezes são mais decisivas na nossa carreira do que certificações, pós graduações ou títulos conquistados.
Uma vez um dos meus lideres me disse: “O segredo para o sucesso é ser lembrado sempre que tocarem em assuntos da sua área de atuação“.
Bons testes
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